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PSDB precisa redescobrir o povo

Por Mauro Pereira Leite:
A troca de gentilezas entre Aécio Neves e Milton Temer é parte do drama prolongado em que se movimenta o PSDB. Abrigo de tantos medalhões da política brasileira, o PSDB corre o risco de ir parar no desmanche por divergências entre seus caciques, seus índios e também entre seus economistas -- que não podem se encontrar durante um jantar para não azedar a comida. Principal referência do partido, respeitado por caciques e índios de todas tribos, Fernando Henrique Cardoso realizou um esforço de pacificação e liderança quando disse que o PSDB deveria apoiar Gilberto Kassab para prefeito de São Paulo em 2008, lançar Geraldo Alckmin para o governo do Estado e José Serra para a presidência em 2010. O resultado é que Alckmin está em campanha acelerada para disputar a prefeitura e Aécio se movimenta em torno de um “projeto para o país.” O que acontece com o PSDB? Minha tese é que o partido precisa redescobrir o povo. Quem sabe procurando os militantes, organizando uma primária no estilo americano. É uma idéia velhíssima, mas talvez seja útil, e que também poderia ter sua vantagem no PT e em outras legendas. Mas tenho uma opinião antiga sobre o PSDB. Para animar o debate, republico aqui um texto do meu blogue, com data de 14 de setembro de 2006. Faltavam poucas semanas para o primeiro turno da eleição presidencial e a vitória de Lula estava claríssima no horizonte. O título do texto era justamente “PSDB precisa redescobrir o povo”. O texto está abaixo: “ Há muito tempo que venho dizendo que o problema da campanha de Geraldo Alckmin não é marketing. É política. Minha visão é que ele não conseguiu mostrar o país que carrega no coração – e por essa razão não consegue atrair mais votos que o tradicional eleitorado tucano. Seu cesto de intenções de voto é só um pouco maior que o de José Serra em 2002, o que é um absurdo quando se considera o que ocorreu nos quatro anos do governo Lula e a fragilidade dos demais concorrentes de oposição. Acho que o PSDB precisa voltar ao povo. E essa é a prioridade para entender o que acontece agora e também quando se fala sobre 2010. O problema não é a disputa entre Aécio Neves e José Serra. Ou sobre o destino de Geraldo Alckmin, caso as urnas de 2006 confirmem o que está escrito nas pesquisas e Lula seja reeleito. Em 1994, quando fez o Plano Real e garantiu a estabilidade da moeda, Fernando Henrique Cardoso garantiu a própria eleição porque soube estar junto ao povo e foi eleito pela turma C, D e E. Esse é o pessoal que decide uma eleição direta e que hoje muitos observadores tucanos definem como mal-nutridos e desinformados. Em 1994 Lula estava com um pé no Planalto mas depois do Real foi obrigado a fazer o caminho de volta e esperar oito anos. A razão? Apesar do carisma popular nulo, FHC estava aonde o povo está – este é o lugar dos artistas, como disse Milton Nascimento, e também dos políticos. O PT precisou de oito anos para entender o valor da estabilidade, sem a qual teria tido muito mais dificuldades para eleger Lula em 2002 e sem a qual não teria conseguido governar a partir da posse. O PSDB enfrenta agora um problema semelhante, na área social. Não se deve esquecer o mensalão e sua escória, nem por um momento. Deve-se rejeitar o "não sabia de nada" e denunciar a vergonha produzida no Congresso. É preciso cobrar tudo de bom que poderia ter sido feito e não foi -- a começar por um crescimento econômico mais decente. Mas em política é preciso olhar para aquilo que o povo está olhando: comida barata, crédito acessível, ajuda aos mais necessitados, bolsa para entrar em faculdade privada. É difícil negar que o governo Lula deu uma resposta para problemas importantes para milhões de brasileiros. Pode ser insatisfatória, incompleta e até demagógica, como sustentam economistas tucanos. É claro que falta porta de saída para o Bolsa-Família, o que é grave. Mas é inegável que hoje a massa de pobres e excluídos ganhou espaço no Estado – e por isso se reconhece no presidente. Sem reconhecer isso, o PSDB estará condenado a comentar os acontecimentos. Pode falar em populismo, aparelhamento do Estado e levantar o fantasma do autoritarismo. Esta é a crítica que se espera da oposição a um governo do PT. Mas só com isso o PSDB não será ouvido pelo povo. Ficará de comentarista da vida política. Esse é ponto. FHC foi eleito em 1994 dizendo que o Brasil era um país injusto. Estava certo.” Vocês acham que, um ano e seis meses depois, esses argumentos tem valor?
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